Intercambistas Lalah Mahigo e Vando da Costa Infante 4

Big Band de São Carlos faz show memorável ao lado de moçambicanos


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Sintonia perfeita e vibrante. Essa foi a essência do Guri Convida, projeto realizado entre o Grupo de Referência de São Carlos e os intercambistas moçambicanos Lalah Mahigo e Vando da Costa Infante, dia 19 de maio, no Teatro Municipal de São Carlos.  No repertório, músicas brasileiras, americanas e africanas, sob a regência do educador Edison Penteado.

A vivência dos solistas no Projeto Guri faz parte do Projeto MOVE (Musicians and Organizers Volunteer Exchange) – criado pela JM Norway e promovido aqui no país pelo Guri. O objetivo é promover o intercâmbio cultural entre jovens músicos voluntários e as organizações parceiras (Music Crossroads Malawi, Music Crossroads Moçambique, Amigos do Guri, JM Norway e Trondertun Folk High School). Em 2016, quatorze jovens dos quatro países foram beneficiados com a proposta.

Os jovens moçambicanos chegaram em São Carlos, interior de São Paulo, em janeiro, e partirão dia 11 de julho. No Guri, a dupla ministra oficinas nos polos e na Fundação CASA. A escolha da cidade foi estratégica, levando em conta a amplitude de acesso à cultura sonora na região e o ensino de educação musical na Universidade Federal de São Carlos.

Coube à Coordenadora da Regional São Carlos, Edenilva Rios, receber os visitantes. Com 28 anos, apenas quatro a mais que os intercambistas, a gestora teve que se dividir entre as várias atribuições do Guri, a vida familiar e os cuidados com os jovens. Apesar da correria, Dê, como é chamada, só faz elogios aos queridos pupilos.

“Eles são animados, se empolgam com tudo e participam de tudo que é proposto no Guri. Não me dão trabalho nenhum com agenda e convivência, seguem tudo dentro do combinado e se preocupam em fazer bem feito. Além disso, musicalmente falando, são artistas incríveis”, revela Edenilva Rios, Coordenadora Regional São Carlos, já antecipando que sentirá saudades.

 

GR Big Band – São Carlos
O Grupo de Referência de São Carlos reúne alunos em estágio avançado de aprendizagem de polos da Regional de São Carlos. É composto por instrumentos de sopro (flauta transversal, saxofones, trombones e trompetes), apoiados e conduzidos pela sessão rítmica e harmônica (bateria, baixo elétrico, guitarra, teclado e percussão). Executa repertório eclético, com proposta de praticar e difundir a música popular, principalmente a brasileira. Sob a liderança do educador e regente Edison Penteado, o grupo já se apresentou ao lado de grandes artistas, como Rafael dos Santos, Fernando Correia, Sidnei Borgani, Nelton Essi e Vinícius Dorin. Exibe sonoridade exclusiva, arranjos inéditos e muita dedicação.

 

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Confira a entrevista com Lalah Mahigo (nome artístico de Carla Manuel):

Sua aula de canto africano na Fundação CASA Araraquara foi muito elogiada. Como foi esse trabalho?
O trabalho desenvolvido em Araraquara não foi fácil, pois exigiu muita dedicação da minha parte. Eu primeiramente dei algumas ideias do que ocorre em Moçambique. Mostrei alguns vídeos de cantores moçambicanos e eles adoraram conhecer e ver que, no fim das contas, não somos tão diferentes. Comecei ensinando a soletrar as letras em changana (língua falada em Maputo, Moçambique) e depois a melodia, portanto, por ser algo diferente, eles achavam muito engraçado e isso fez com que as aulas fossem divertidas. Também procurei fazê-los participar diretamente das aulas. Eles propunham os aquecimentos e a sequência das músicas a cantar.

Qual foi a experiência mais interessante que você vivenciou no Projeto Guri?
A experiência mais interessante que vivenciei no Projeto Guri foi me vestir de educadora e gerir comportamentos de variadas pessoas. Isso me obrigou a ter de respeitar as opiniões alheias, a saber ouvir coisas desagradáveis por vezes e, o mais valioso, desenvolver a capacidade de criação na sala de aula, isto é, saber mudar de planos ou continuar quando necessário.

Quais as diferenças e semelhanças no ensino da música, aqui e em Moçambique?
A primeira diferença no ensino é justamente o fato de aqui no Guri se usar obras e peças musicais nacionais na maior parte das vezes. Em Moçambique não temos muitas obras escritas para estudo.

O que você achou de participar do festival Crie sua Própria Música?
O festival Crie sua Própria Música foi meu primeiro contato com alunos e permitiu ver como eles precisavam de uma oportunidade de expressarem a musicalidade. Eu gostei das regras que foram estipuladas pelos criadores do projeto, que só provaram que ninguém é uma ‘tabua rasa’, os alunos têm muita capacidade. Por outro lado, eu participei também como apresentadora e foi bom para mim estar dos dois lados. Pude participar da emoção dos pais em ver seus filhos criarem e, ao mesmo tempo, ver a ansiedade dos alunos em apresentar o que criaram.

Quais as vantagens do intercâmbio?
O crescimento do intercambista que está fora do meio habituado, tem que se enquadrar em outros contextos, saber gerir o dinheiro, conviver com colegas que vêm de outras realidades e culturas e também administrar a saudades dos seus de uma maneira que não atrapalhe o trabalho. É proveitoso a nível profissional, como se estivéssemos estagiando para a vida. Além da parte musical, aprendemos coisas burocráticas, fazemos muita amizade e isso abre portas para uma eventual parceria no futuro. Eu creio que ninguém volta igual  para casa, todos nós somos outras pessoas, melhores do que saímos.

Qual foi o maior desafio que enfrentou nesse período?
As primeiras semanas na Fundação CASA foram insuportáveis. Muito difícil absorver os comportamentos de sabotagem, falta de respeito pelos meninos e isso me obrigou a me vestir de uma outra pessoa mais paciente, compreensiva, surda e graças a Deus deu tudo certo depois.

Como foi a convivência com os funcionários do Guri?
Fiz muitas amizades e vou lembrar de todos quando voltar a Moçambique.

Do que mais sentirá saudades do Brasil?
Da simpatia das pessoas, que são muito carinhosas e hospitaleiras. Eu absorvi muito amor dos brasileiros.

O que pensa em fazer após voltar para o seu país?
Penso em dar continuidade às aulas de música e tentar transmitir tudo o que aprendi aos que não tiveram a oportunidade de estar aqui. Penso em desenvolver projetos como o Crie sua Própria Música em instituições desfavorecidas, como casas de repouso e creches.