Intercambista norueguesa conta a experiência vivida no Projeto Guri


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Ellen-Martine Gismervik começa a se despedir dos pássaros que cantam para ela todas as manhãs e da garotada que se diverte com suas trapalhadas diante da língua portuguesa. No fim de maio, a moça volta para casa, na Noruega. A violoncelista passou nove meses em São Carlos, no interior de São Paulo, compartilhando sua experiência musical com alunos e educadores do Projeto Guri. Entre as atividades desenvolvidas na associação, destaca-se o festival Crie Sua Própria Música, uma experiência nova, realizada com notório empenho.

“Os noruegueses são mais calados, faz parte da cultura deles. Ellen auxiliou bastante nas aulas de violoncelo e ministrou oficinas de criação musical para as crianças. No seminário Ser Criativo (exclusivo para funcionário do Guri), ela fez um relato de experiência muito enriquecedor sobre o desafio de participar do festival”, contou Edenilva Rios, coordenadora do Projeto Guri na Regional São Carlos.

A estadia de Ellen no Brasil faz parte do programa MOVE (Musicians and Organizers Volunteer Exchange) – criado pela JM Norway e promovido aqui no País pelo Guri. O objetivo é promover o intercâmbio cultural entre jovens músicos voluntários e as organizações parceiras (Music Crossroads Malawi, Music Crossroads Moçambique, Amigos do Guri e JM Norway). Em 2016, quatorze jovens dos quatro países foram beneficiados com a proposta. Para cá vieram os noruegueses Ellen-Martine Gismervik e Nikolai Gmachi-Pammer (que voltou no começo do mês) e também os moçambicanos Lalah Mahigo e Vando da Costa Infante. Os selecionados brasileiros tiveram dois destinos: para a Noruega embarcaram Henofrancy Aquiles de Almeida Aquino (educador de percussão do Polo Dracena) e Aydan Madureira Schmidt (aluno do Grupo de Referência de Santos); para o Malawi, Eduardo Henrique Scaramuzza (educador de percussão do Polo Campinas) e Ananda Roda de Miranda (ex-aluna do Grupo de Referência de Araçatuba).

Durante sua passagem no Guri, Ellen visitou vários Polos e teve a oportunidade de conhecer realidades diferentes em vários cantos do Estado. Sentiu-se chocada com a vulnerabilidade econômica, social e cultura de algumas regiões. A jovem compreendeu a importância de combinar educação musical e trabalho social. Virou fã do Projeto.

 

Crie sua Própria Música
Denominado Crie Sua Própria Música, o festival teve início em 25 de janeiro, com a volta dos alunos às salas de aula e a chegada dos intercambistas moçambicanos. O processo resultou em duas apresentações abertas ao público, realizadas nos dias 11 e 12 de fevereiro, no Auditório da Prefeitura Municipal de São Carlos. Na ocasião, foram apresentadas todas as composições criadas pelos Guris, em formato de espetáculo.

Cerca de 150 alunos dos cursos de canto coral, cavaco, violão, percussão, baixo elétrico, guitarra, bateria, teclado, iniciação musical, saxofone, trompete, trombone, clarinete, flauta transversal, violino, viola clássica, violoncelo e contrabaixo acústico introduziram ao público presente um pouco de todo esse trabalho realizado no Polo. Segundo os visitantes estrangeiros, o festival foi importante para que eles contribuíssem com seus saberes de forma ‘focada, independente e criativa’.

 

Confira as impressões de Ellen-Martine sobre o Projeto Guri e o Brasil

1 – Qual foi a experiência mais interessante que você teve no Projeto Guri?
Meu maior projeto foi o festival Crie Sua Própria Música. Eu fiquei responsável pelo programa durante três semanas e foi um desafio muito grande. Percebi que, embora o Polo de São Carlos nunca tivesse feito isso, eles foram muito positivos e estavam ansiosos para que a ideia pudesse funcionar. Todo mundo confiou em mim. Teve um monte de coisas que poderiam ter sido feitas de forma diferente mas, olhando para trás, percebi que foi tudo um sucesso. Acho que o resto da equipe concorda. Nem todos agem desta maneira aberta e positiva diante de algo diferente, mas os educadores e os funcionários do Guri estavam prontos para o desafio e verdadeiramente abertos as minhas ideias. Essa foi uma experiência muito agradável para mim.

2 – O que você achou do Projeto Guri em relação à música e desenvolvimento humano de crianças e jovens?
Aplaudo o Projeto Guri. Acho que este tipo de trabalho, combinando educação musical e trabalho social, é muito importante. Como as aulas são gratuitas, o Guri oferece às crianças de famílias desfavorecidas oportunidade de melhoria da qualidade de vida, o que para alguns deles é difícil encontrar em outro lugar. Além disso, a educação musical é de alto padrão e dispõe de um grande grupo de educadores muito talentosos! O Guri é um lugar bom e seguro.

3 – Quais são as diferenças e semelhanças no ensino de música aqui e na Noruega?
De muitas maneiras, a educação musical no Brasil pode lembrar a da Noruega. Temos algum repertório em comum e as formas de trabalhar as técnicas são semelhantes. Uma diferença é que em uma escola de música normal na Noruega todos os alunos recebem aulas individuais de 20 a 25 minutos por semana. No Guri, os alunos têm duas horas inteiras de aula por semana, em grupo. Para um estudante do violino, isso pode significar ter aulas em conjunto com outros treze estudantes de cada vez. O Guri poderia adiciona mais criatividade à educação. É importante lembrar que, embora os alunos não dominem seus instrumentos, isso não significa que eles não têm musicalidade. Eu penso que a educação musical norueguesa para as crianças é assim (mais criativa).

4 – Como foi o seu contato com a música brasileira?
O que eu amo na música brasileira é que você não pode fugir dela. Ela está em toda parte. As pessoas tocam nas ruas, nas lojas, nos restaurantes. Parece que todos conhecem alguma música brasileira e como dançar. Tem sido muito legal conhecer uma nova linguagem musical – porque realmente é uma outra linguagem, de muitas maneiras. Alguns dos ritmos que você encontra na música brasileira são muito difíceis de acompanhar quando você não está acostumado. Participei de aulas de percussão no Projeto Guri durante esse período e isso me deu uma boa introdução aos ritmos básicos de vários estilos da música brasileira. Espero no futuro poder tocar músicas brasileiras!

5 – Quando você chegou ao Brasil, você disse que a linguagem seria um desafio. Você teve aulas de português três vezes por semana, certo? Como foi?
Definitivamente, a  língua tem sido um grande desafio, mas eu gostei. Para os três primeiros meses da minha estadia, eu tinha um professor de português muito bom. A combinação dessas aulas três vezes por semana e o treinamento prático ao lado dos brasileiros resultou em um bom progresso na minha aprendizagem. No Guri houve alguns desafios, mas as crianças estavam muito ansiosas para me ajudar, ensinado novas palavras. Tivemos algumas situações muito engraçadas de comunicação corporal. Meu português não está em um nível elevado, mas eu entendo bastante e sou capaz de participar de conversas simples. Estou muito feliz por ter sido apresentada a uma nova língua e vou continuar praticando depois que eu voltar para a Noruega.

6 – E a cultura? Achou muito diferente?
A cultura brasileira é tão longe da cultura norueguesa como o Oceano Atlântico que nos divide. O povo brasileiro é muito fácil. Eles são calorosos, acolhedores e extremamente prestativos – e eles adoram a empresa. No geral, para mim, os brasileiros são bem enérgicos. Eu ainda não entendo como todos conseguem falar ao mesmo tempo e ainda entender o que todos estão dizendo. Ao mesmo tempo em que eu amo esse lado dos brasileiros eu sou exatamente oposta. Sou tranquila, não gosto de badalação, tenho grande necessidade de espaço pessoal e não falo com as pessoas sem necessidade. Eu acho que foi realmente bom para mim ser desafiada sobre essas coisas.

7 – Qual foi a parte mais fácil de viver no Brasil?
A parte bonita sobre a diferença cultural. No Brasil, você nunca está sozinho. Você sempre é convidado para ir a algum lugar e sempre tem com quem conversar. Quando chegar em casa vou me sentir estranha de não abraçar e beijar todos que conheço.

8 – Qual foi o seu maior desafio durante o tempo que esteve aqui?
Mudar para o exterior por meses, em um país tão diferente, é a coisa mais difícil que já fiz. Acho que o maior desafio foi encontrar alguém que realmente entendesse a minha realidade. Os brasileiros não conhecem muito sobre os noruegueses, nem como é o país de onde venho. Portanto é difícil para eles compreender meus costumes, não importava o quanto eu explicasse. De volta para casa, quando eu falar com minha família e amigos, será o oposto. Eles não saberão sobre minha vida brasileira e realmente não entenderão o desafio que enfrentei aqui. Essa é a troca: viver e compreender uma cultura diferente.

9 – Algum tipo de som foi marcante nessa experiência? Por exemplo, o som de um pássaro, uma música específica, um ruído, uma voz.
Sim. Alguns sons que eu associo com a minha estadia no Brasil. Um deles é o som do alarme do carro, pois há vários assim aqui em São Carlos. Existem alarmes que disparam a qualquer hora, qualquer dia e no meio da noite. Outro é o dos pássaros que me acordam todas as manhãs.  Um som que tenho lutado para aprender em português é o som nasal, o que não temos na língua norueguesa e pensei: ‘uau, até mesmo os pássaros são nasais!’ Um último som que me lembra o Brasil é o conjunto de instrumentos de percussão tocando junto. Especialmente o som de pandeiros. Também adoro o maracatu (som que ouviu várias noites de uma casa vizinha).

10 – O que você pretende fazer depois de voltar para o seu país?
Quando eu voltar para a Noruega farei trabalho voluntário na minha organização – a última parte do projeto. Assim, por meio dele, terei a oportunidade de trabalhar com música em diferentes contextos, planejando festivais e eventos musicais. Será bom para aplicar as experiências que tive como estudante de intercâmbio aqui. Paralelamente, terei uma série de concertos para tocar. Eu gosto de tocar, por isso seria bom combinar este trabalho de administração musical com algo mais autônomo.

Gostou da entrevista da Ellen-Martine e ficou interessado em ter mais informações sobre o projeto MOVE? Fique de olho, porque no início do segundo semestre serão abertas as inscrições para novos participantes brasileiros!

Veja abaixo as imagens da Ellen: